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De luto por Saramago, atento para seu legado

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Saramago era um homem comum, que guardou consigo, mesmo após a fama, o talhe de homem comum, na generosidade com que olhava para os outros, especialmente “os debaixo” e na desimportância que marcava a sua relação com a fama.

* Alexandre Pilati

Numa tarde comum, de um 18 de junho da Ilha de Lazarote, nas Canárias, deixou de viver o seu mais ilustre habitante: o escritor José de Sousa Saramago. Poeticamente, registra o falecimento do Prêmio Nobel de Literatura de 1998 o site oficial do escritor, estampando em letras brancas sob o fundo negro lutuoso: “Hoje, sexta-feira, 18 de Junho, José Saramago faleceu às 12.30 horas na sua residência de Lanzarote, aos 87 anos de idade, em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença”. Se a tristeza abate a comunidade literária mundial com perda de um intelectual que até poucos dias continuava ativamente o seu ofício de pensar o mundo, não é sem orgulho e satisfação que se contempla a biografia e o conjunto da obra que Saramago foi capaz de construir com dignidade e coerência por mais de 60 anos de trabalho com a palavra.

Saramago era um homem comum, que guardou consigo, mesmo após a fama, o talhe de homem comum, na generosidade com que olhava para os outros, especialmente “os debaixo” e na desimportância que marcava a sua relação com a fama. Como se sabe, o autor começou a trabalhar como serralheiro mecânico e exerceu, também, diversas outras profissões como as de desenhista, funcionário da saúde e da previdência social, editor e tradutor. Membro do Partido Comunista português, sempre lutou pelo arrefecimento das forças de exclusão financeira e cultural da modernidade capitalista. Nas letras, começou a atuar como crítico literário na revista Seara Nova e como comentarista político no Diário de Lisboa (1972-73). Foi ainda diretor adjunto do Diário de Notícias durante anos difíceis da década de 1970, em que a censura era ferrenha contra a imprensa e autores como ele.


Essas duas atividades (crítico literário e comentarista político) exercidas durante anos decisivos para o seu amadurecimento como romancista, se desejarmos, podem ilustrar muito bem as duas mais fundamentais marcas da vida pública de José Saramago: o compromisso com a literatura e o compromisso com uma atitude intelectual politicamente engajada. Marca a atividade de Saramago a luta contra as injustiças e os desmandos da Igreja Católica e também contra a dinâmica excludente da modernidade. Não só em artigos de opinião que escrevia regularmente para a imprensa, mas também em suas obras de ficção, essa posição crítica com relação ao mundo se verificava.

No que se refere à crítica à Igreja são marcantes os livros O evangelho segundo Jesus Cristo, que propõe uma versão humanizada da história do Cristo, e o último romance lançado pela Cia das Letras no Brasil, Caim, que revisita a história do Velho Testamento. Com respeito ao combate sem descanso que empreendeu contra as estruturas alienantes da modernidade ocidental, ficam como obras incontornáveis os romances Ensaio sobre a cegueira (1995), Todos os nomes (1997) e A caverna (2000). É essa atitude que certamente será um dos maiores legados da figura de José Saramago não apenas para a literatura em língua portuguesa, mas também para a cultura ocidental. São os intelectuais (e disso é exemplo Saramago) aqueles que primeiro devem inquietar-se com qualquer tipo de mitificação da opressão que cria as abissais desigualdades e as absurdas injustiças em âmbito global.

Ressalte-se, ainda, a importante repercussão que a obra de Saramago e a própria Língua Portuguesa obtiveram com o Prêmio Nobel de 1998. Nas palavras da Fundação Nobel, que outorga o título, o conjunto da obra do português merece destaque, pois “com parábolas sustentadas por imaginação, compaixão e ironia continuamente nos permite apreender aspectos de uma realidade indefinível”. Em termos ficcionais, o trabalho de Saramago é uma síntese das principais tendências da literatura européia do século XX. Sua literatura baseia-se fortemente no cruzamento entre eventos e situações insólitas com painéis históricos muito particularizados e bem definidos. Os melhores textos do autor extraem do atrito entre o realismo comezinho e os elementos de um repertório imagético-narrativo buscado junto à tradição da ficção fantástica a potência estética de interpretação do mundo contemporâneo, muitas vezes sob o signo da provocação.

Em seus discursos e aparições públicas Saramago fazia questão de revisitar esse tipo de atitude que se encontra em modo muitas vezes fabular nas suas narrativas. Assim fez, por exemplo, no discurso lido no Fórum Social Mundial de 2002, intitulado Este mundo de injustiça globalizada em que criticou acidamente a mitificação da democracia burguesa: “Todos sabemos que é assim e, contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não nos deixa ver a nudez crua dos fatos, continuamos a falar de democracia como se tratasse de algo vivo e atuante, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie de missa laica”.

Saramago, doutor honoris causa por esta instituição, não estará mais conosco na busca justa por um mundo melhor. Entretanto, a partir de amanhã, acompanham a todos nós, professores, alunos, comunidade acadêmica, suas palavras e seu legado. Palavras e legado que não farão descansar o desejo de combater as mais radicais formas de opressão do ser humano. Lembremos sempre que, na literatura, como na vida, cada desfecho como esse a que, com pesar, assistimos hoje é, de fato, um novo começo.

* É professor de Literatura Brasileira, do Departamento de Teoria Literária e Literaturas, do Instituto de Letras, na Universidade de Brasília. Doutor em Literatura, é pesquisador na área de Letras, com ênfase em Literatura Brasileira e poesia. Atua principalmente nos seguintes temas: literatura brasileira, poesia brasileira, literatura e classe social, contra-hegemonia, sistema literário, formação nacional, literatura e pensamento crítico.